Futebol
janeiro 31, 2021

HAIR


1972 foi um ano importante na minha vida. Fiz 18 anos, entrei na faculdade e ganhei um carro dos meus pais. Em julho estava de férias

Depois de estrondoso sucesso em São Paulo desembarcou por aqui no Teatro Casa Grande o musical Hair. O teatro de São Paulo era forte, bem estruturado e os atores imprimiam profissionalismo. O musical estreou em 1969 no Teatro Bela Vista(SP) e tinha elenco vigoroso, Antônio Fagundes, Sonia Braga, Nei Latorraca, Altair Lima, Aracy Balabanian, Armando Bogus e muitos outros. Todos vieram para o Rio e estavam afiados depois de dois anos em São Paulo. Devo ter visto umas vinte vezes. Numa noite fiquei após o término da peça e conheci a atriz Selma C., linda cabelos desgrenhados e muito doida. Meu cabelo também era bem longo e me vestia meio extravagante, camiseta da Biba e jeans da Lixo. A censura era forte, tempos do golpe militar, mas não encontraram nada de subversivo na peça. Na verdade o musical americano que falava de um jovem que negava  se alistar para ir ao Vietnã foi adaptado e tinha uma cena ápice em que todos atores ficavam em nu frontal. Foi o única brecha que a censura encontrou para implicar, mas devido ao grande público chegou-se a um acordo para que a iluminação fosse reduzida.

Dormia de dia e de noite ia para o Casa Grande, a noite era longa, comecei a sair com Selma C. e numa madrugada ela me levou na casa do seu(dela) amigo Ezekiel Neves em Ipanema. Zeca para os mais íntimos era escritor, colunista, intelectual, inteligente e produtor musical (anos mais tarde lançou o cantor Cazuza). Me sentia um calouro ali no meio deles e outros que frequentavam o apartamento, Depois jantar na madrugada no Pizzaiolo, Degrau, Baixo Leblon e outros .  A noite no Rio era fervilhante e as pessoas saiam muito.

Um dia que Selma C. estava de folga, levei-a para almoçar na casa dos meus pais. Ela foi de bata, vestido e botinhas e os cabelos totalmente desgrenhados. Achei que eles iam se chocar, mas se isso aconteceu eles não demonstraram. Foi um ano criativo e elucidador.

Selma C. era atenciosa, carinhosa e se dedicava a nós. Foi um choque quando a temporada carioca terminou e o musical foi para o Nordeste. Um sonho de uma(s) noite de inverso terminou como num estalar de dedos. Nunca mais vi Selma C. A vida seguiu voltei a estudar e pouco depois estreava no Teatro Ipanema o musical “Hoje é dia de Rock” , mas aí são outros quinhentos.

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